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31 Oct, 2008

Lico – Um amigo especial!

Postado por: papocicuta In: Diversos

Dias atrás li um texto sobre a banalização da palavra amigo, devido à proliferação dos sites de relacionamentos, onde você acaba chamando todo mundo de amigo. Isso me inspirou a escrever sobre um amigo que tive na infância. Lico. Esse era o nome dele, simplesmente Lico. Aperte o play da música abaixo e ouça o som enquanto le o texto. Quando chegar no final veja o vídeo.

O início

Conheci o Lico quando tinha seis anos de idade. Ele era mais velho cerca de dois anos. Desde o princípio ele se mostrou um garoto diferente. É, tinha algo no Lico que na minha ingenuidade, fazia com que eu, apesar de mais novo, agisse como seu protetor. Logo percebi que apesar de estar sempre sorrindo, o Lico não tinha tantos motivos para estar alegre. Seu pai, um verdadeiro brutamontes, não tinha paciência com sua lentidão e vira e mexe, aplicava-lhe um castigo que quase sempre deixava marcas.

Certo dia fomos acordados tarde da noite pelo chamado do pai do Lico. Todo mundo levantou: meu pai, minha mãe, eu, minha irmã e meu irmão caçula. Afinal de contas, dormíamos todos no mesmo quarto sobre uma esteira no chão batido. Quando vimos a situação, eu particularmente, tive muita pena do Lico. Ele estava sobre a garupa da bicicleta e o pé direito preso entre a corrente e a coroa da bicicleta. O estranho é que ele não chorava apesar do sangue estar escorrendo do seu pé. De vez em quando seu pai soltava um palavrão. “Mardito menino, tinha que colocar o pé aí!” Notei o esforço do meu pai para não tomar uma atitude mais drástica com aquele homem. Agindo rápido meu pai desmontou a bicicleta e soltou o pé do Lico que a essa altura já estava todo inchado. Minha mãe cuidou dele e seu pai o levou para a casa. Tenho a impressão que ele ainda apanhou quando chegou lá. Se o meu apego com o Lico já era grande, a partir daquele dia passou a ser maior ainda. O Lico era diferente. Ele precisava de alguém para protegê-lo.

Na escola

Quando completei oito anos nos mudamos para um bairro próximo, pois ali havia uma escola. Meu pai queria que eu estudasse. A sala de aula era dividida em duas partes e o mesmo professor dava aula para duas turmas: terceira e quarta série na parte da manhã e priimeira e segunda série à tarde.

Logo em seguida a família do Lico (ele, o pai, a mãe e sua irmã caçula), também mudaram próximo da minha casa. Cerca de quatrocentos metros de distância. Era o suficiente para sabermos quando o Lico apanhava de seu pai. Toda vez que isso acontecia, logo em seguida ele aparecia na minha casa. Muitas vezes minha mãe tinha que cuidar dos ferimentos. Mesmo assim o Lico estava sempre sorrindo. Aquilo causava grande revolta em todos nós , até que meu pai conversou com aquele homem, tentando fazê-lo entender que seu filho precisava de cuidados especiais e não de uma surra todo dia.

Quando fomos para a escola, ficou claro que o Lico era mesmo diferente de todos. Mesmo aqueles riscos paralelos que fazemos quando estamos aprendendo a escrever, para ele era uma dificuldade imensa. Ele simplesmente fazia rabiscos sobre a folha toda sem nexo algum. Isso foi o bastante para seu pai tirá-lo da escola. O Lico não aprendeu a escrever e muito menos a ler.

Lembranças

Os momentos que passamos juntos foram sempre de grande diversão para esses dois garotos do interior. Quando saíamos para “caçar” com estilingue, na verdade, apenas caminhávamos pelos bosques do sítio, já que coragem para adentrar na mata fechada nós não tínhamos mesmo. Foram momentos da minha infância que ficaram marcados para sempre. Aquele era um amigo. Amigo com “A” maíusculo que não se esquece jamais. Quando me lembro daquele garoto magrelo, desnutrido e cheio de manchas no rosto, fico com os olhos marejados…

Neste ponto tive de parar de escrever, pois não conseguia ver as letras no meu monitor que ficaram embaçadas devido minhas lágrimas que teimavam em escorrer pela face. Parei, respirei fundo, tomei um copo de água e voltei a escrever.

O reencontro que não teve

Quando tinha dez anos meu pai mudou-se para a cidade e eu nunca mais vi o Lico. O tempo passou e quando ele já tinha seus dezesseis anos é que fiquei sabendo que estava com uma doença incurável. Hoje me arrependo, mas não tive coragem de ir visitá-lo. Eu temia vê-lo triste, coisa que jamais vi. Na verdade eu acreditava que em breve ele estaria bom e novamente poderíamos brincar juntos. Muitas vezes chego a pensar que sua doença foi em decorrência dos maus tratos recebidos do pai. Enquanto estávamos por perto os castigos diminuiram, mas depois que fomos embora, tenho certeza que os castigos recomeçaram deixando-o ainda mais debilitado.

O fim do sofrimento

Mas não foi assim. Os dias passaram rápidos e numa tarde fria de inverno chegou o recado de que o Lico havia falecido na flor da adolescência. Foi um dia muito triste para mim. Parecia ter perdido alguém da minha família. Hoje eu sei que o Lico foi muito importante na minha infância. Ele apesar da sua deficiência mental me ensinou a ser paciente, a suportar as adversidades com um sorriso no rosto. Ensinou-me a bondade, o amor ao próximo e acima de tudo a aceitar as diferenças. Por tudo que ele sofreu durante sua rápida estadia sobre a terra, tenho certeza que estará entre os escolhidos para a vida eterna.

Esta é uma homenagem que faço a todos que considero meus amigos e principalmente ao Lico que foi meu primeiro amigo e estará para sempre no lado esquerdo do meu peito.

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3 Responses to "Lico – Um amigo especial!"

1 | Paulo Freixinho

November 1st, 2008 at 11:30 am

Avatar

Parabéns pelo artigo, uma linda homenagem a um Amigo…

Um abraço!

Paulo FreixinhoÚltimo post, PapocicutaBlogues que estou a seguir e seguidores

2 | Valdeir

November 2nd, 2008 at 8:02 pm

Avatar

Olá, Darcy! Como vai? Essa história que você escreveu é emocionante; toca no fundo da nossa alma. A primeira coisa que solta aos olhos é o fato de “ser amigo” apesar das diferenças. Você não discriminou o Lico. Você já parou para pensar se ele não ficou com a doença incurável quando morava próximo a vocês, justamente por ter seu apoio emocional?
Um abraço e fica com Deus.

3 | pligg.com

January 19th, 2009 at 1:34 am

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Lico – Um amigo de verdade | PAPOCICUTA…

Dias atrás li um texto sobre a banalização da palavra amigo, devido à proliferação dos sites de relacionamentos, onde você acaba chamando todo mundo de amigo. Isso me inspirou a escrever sobre um amigo que tive na infância. Lico. Esse era o nom…

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